Pequenos passos, grandes saltos: formações para bioeconomia no Médio Solimões

Pescar pirarucu não é tarefa fácil. Primeiro, o peixe por si só já tem mais de 1,5 metros, passando fácil dos 40 quilos. Além de pescar, tem que contar pirarucu no lago um ano antes para saber quanto pode ser pescado, cuidar do território, vigiar, registrar peixe por peixe, limpar e ainda organizar venda. Muito trabalho que tem resultados importantes na conservação de sistemas de lagos, aumentando a população de pirarucus e de outros animais e mantendo a floresta biodiversa. Isso é manejo participativo, uma experiência que marca diversas organizações comunitárias na região do Médio Solimões, no Amazonas.
Organizar o manejo torna-se chave e requer arranjos políticos, articulações constantes e engajamento de comunitárias e comunitários na organização de suas Associações. Um trabalho burocrático, que no dia a dia pede conhecimentos de gestão. Aqui, formações são chaves para que associações dos territórios fortaleçam suas capacidades operacionais.
Desde 2024, um arranjo potente de instituições se somou ao trabalho das associações para oferecer formações, a partir das demandas do território. Temas como associativismo, gestão financeira, contabilidade e comunicação foram tratados em diversos encontros presenciais, em comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no município de Fonte Boa, no Amazonas. “Trabalhar em conjunto com as comunidades, apoiando seus processos produtivos, é a forma mais consistente de identificar oportunidades para aprimorar a qualidade de vida, promovendo a interação sustentável entre a natureza, as populações locais e os diversos atores envolvidos ao longo desse processo. Por meio de formações construídas de maneira participativa, temos trabalhado neste sentido, fortalecendo a cadeia de valor do pirarucu de manejo”, afirma a professora Maria Sylvia Macchione Saes, do grupo de pesquisa Bioeconomia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da Universidade de São Paulo.
O primeiro ciclo de formações rendeu frutos, e em 2025 e 2026, mais um conjunto de formações foi oferecido. Desta vez, o tema foi Letramento Digital para o fortalecimento da gestão. E representantes da Reserva Extrativista Auatí-Paraná se somaram ao grupo de participantes. Em três encontros, foram tratados temas de montagem de microcomputadores, configuração de contas de e-mail, até cálculos simples em planilhas, formatação de textos em mensagens, anexar documentos até a discussão sobre cidadania e segurança digital. Para encerrar o ciclo, mais um módulo será oferecido de 17 a 21 de março de 2026.
A troca de conhecimentos se somou ao acesso aos próprios computadores. Das 40 pessoas que se inscreveram no curso, 31 disseram que não tinham e nem conheciam alguém que pudesse emprestar um computador para utilizar para praticarem seus conhecimentos. No máximo, smartphones fazem parte da rotina do grupo. Para resolver essa questão, equipamentos foram cedidos pelo Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática e pelo Laboratório de Sustentabilidade, ambos da Escola Politécnica da USP, e chegaram em Fonte Boa, com apoio da Força Aérea Brasileira e da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Agora, a infraestrutura disponível na sedo do município de Fonte Boa. Segundo o presidente da Associação Agroextrativista Auatí-Paraná (AAPA), Edvaldo Tavares de Lima. “Vimos a dificuldades das alunas e alunos, por causa do calor na sala onde foram ligados os computadores. Como aqui a gente se preocupa com essa questão de ver as pessoas bem, no local onde trabalha, a gente se preocupou em colocar um ar-condicionado – até para melhorar o aprendizado dos alunos, para que eles tenham um melhor desenvolvimento”.
Todo o processo metodológico dessas formações faz parte do CapGestão, que tem o foco em oferecer formações para o fortalecimento de práticas administrativas com ferramentas, processos e novas perspectivas para os desafios do empreendedorismo. “O CapGestão instrumentaliza o conhecimento administrativo e gerencial, a partir da realidade local e da aplicação prática do conhecimento. Engajamos universidades nesse processo, pensando na institucionalização da metodologia, o que impacta no próprio papel que as instituições de ensino desenvolvem em seus territórios”, destaca Cláudia de Souza, diretora de projetos na GIZ Brasil.
Para o professor Elton Teixeira, da Universidade do Estado do Amazonas, as ferramentas do CapGestão permitem abordagens mais adequadas para os territórios. Elton participa de formações desde 2022, e tem levado para os territórios as novas ferramentas. “Este curso de Letramento Digital, por exemplo, vem ao encontro de uma melhoria contínua nos processos dessas associações e desses empreendimentos de base comunitária. O que nós estamos vendo é o quanto eles estão interessados, pois esse conhecimento vai agilizar a comunicação que antes eles faziam pessoalmente. Eles estão percebendo que podem escrever, enviar e-mails, fazer requerimentos, tudo pelo computador ou pelo telefone celular”, afirma.
As formações contam com uma vasta rede de parcerias para ocorrerem. Elas fazem parte do escopo do projeto Bioeconomia Inclusiva na Amazônia: Fortalecimento de Cadeias Produtivas Sustentáveis, implementado pela FEA/USP, apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas. Também tem parceria com o Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal, Fundação Getúlio Vargas/SP, Escola Superior de Ciências Sociais/UEA, Laboratório de Geografia do Trabalho e Dinâmicas Territoriais na Amazônia/UEA e Centro de Estudos Superiores de Tefé/UEA; Instituto Federal do Amazonas, AAPA, Fundação Amazônia Sustentável, Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Além disso, tem parceria com o projeto Bioeconomia para Florestas, desenvolvido pela Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), com recursos do Ministério Federal da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha.