Cooperativismo promove desenvolvimento econômico, justiça social e conservação da floresta no Acre

A Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Estado do Acre, a Cooperacre, é um exemplo de como pode-se desenhar uma história de sucesso para cooperativas de produtos extrativistas da sociobioeconomia da Amazônia. Sediada no Acre, a cooperativa se configura como uma rede com uma cooperativa central, que une em suas cadeias diversas cooperativas singulares e associações locais, dando escala e agregando valor para a comercialização de produtos da floresta.
A Cooperacre tem números impressionantes. Em 2023, a Cooperacre movimentou mais de 73 milhões de reais em bioeconomia, beneficiando diretamente cerca de quatro mil famílias extrativistas. Somente na cadeia da borracha, foram produzidas 720 toneladas, gerando 8,6 milhões de reais. Com a coleta da castanha, o retorno ao produtor foi ainda maior: 24,5 milhões de reais com a comercialização de cerca de 350 toneladas de castanha.
Tem a maior produção de castanha beneficiada do país e com planos de se tornar uma líder global . Está presente em cerca de 18 municípios acreanos, assim como em algumas áreas dos estados de Rondônia e sul do Amazonas, contando hoje com mais de 2.500 famílias cooperadas e associadas e impactando uma área de aproximadamente 6 milhões de hectares em Unidades de Conservação e assentamentos da Reforma Agrária. A castanha-do-brasil é o carro-chefe, com uma produção que chega a impressionante média de 1.200 toneladas beneficiadas por ano. Mas a Cooperacre também trabalha com borracha, polpa de frutas tropicais, palmito de pupunha, por exemplo.

A castanha-do-brasil é o principal produto comercializado pela Cooperacre. Nas imagens, o paiol de estocagem e a seleção da castanha para testes de qualidade na indústria em Rio Branco. Crédito: Divulgação Cooperacre.
“Nossos números de comercialização são impressionantes, mas o que mais nos orgulha é construir processos de governança e gestão democrática e a preocupação com as comunidades, enfatizando a importância de uma operação que respeite e valorize a participação de todos as pessoas que fazem parte da Rede Cooperacre. Nossa missão é valorizar a floresta em pé, ao mesmo tempo em que criamos arranjos produtivos sustentáveis e inclusivos. Somente por meio da conservação ambiental e do desenvolvimento socioeconômico será possível assegurar um futuro próspero e sustentável para a Amazônia e suas comunidades”, destaca o Superintendente da Cooperacre, Manoel Monteiro.
Na prática, isso significa uma condição mais justa e rentável de comercialização para milhares de famílias. Dona Nilva da Cunha de Lima, liderança local e associada à Cooperativa dos Produtores Agroextrativista Santa Fé (Coopasfe), reconhece o papel da Cooperacre em mudar a realidade local. Extrativista no município de Capixaba, ela lembra da época em que seu pai vendia a borracha para atravessadores. “Lembro das últimas vezes que meu pai vendeu borracha, por menos de cinquenta centavos… E muitas vezes ele nem era pago. Isso era uma humilhação muito grande que nós passávamos! A relação com a Cooperacre mudou essa realidade do território’, relembra dona Nilva.
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A história da cooperativa começa pelos idos de 2000, com um galpão na cidade de Rio Branco. Já em 2006, a cooperativa em parceria com o poder público estadual, construiu uma indústria de beneficiamento de castanha em Brasileia, seguidas por unidades em Xapuri (2010) e em Rio Branco (2015). Neste processo, o governo do estado do Acre foi um dos principais apoiadores da Cooperacre com políticas públicas orientadas ao fortalecimento de modelos de desenvolvimento compatíveis com a floresta em pé. E ao longo do tempo, contou com parcerias estratégicas com financiadores como o Banco Mundial (BID) e o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), por meio do Fundo Amazônia e com assessorias técnicas, como da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável. A Cooperacre também acessa diretamente políticas públicas. Um exemplo é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – Formação de Estoque, que a Cooperacre acessou desde a sua criação, e isso possibilitou a comprar estoque regulador de castanha com um preço melhor que o atravessador. Outra política pública que a Cooperacre acessa há anos é o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que oferece crédito para fortalecer a agricultura familiar. “É papel do estado fomentar estratégias econômicas que geram emprego e renda local. Além disso, desde o princípio a Cooperacre traz para a equação outro benefício social: práticas sustentáveis, para fortalecer a produção a partir da floresta, gerando oportunidade para comunidades extrativistas. Eu conheço a história da Cooperacre desde o seu começo, e hoje ver a parceria se consolidar por meio da cooperação alemã é muito gratificante. Para nós, apoiar a Cooperacre é apoiar o desenvolvimento de soluções na ponta, que geram renda para quem está sustentando o agroextrativismo a partir da sustentabilidade na Amazônia”, destaca Tatiana Balzon, diretora de projetos da GIZ Brasil.
Hoje, como uma central, a Cooperacre trabalha em uma rede de 13 cooperativas singulares. Atua no setor agroextrativista, que inclui o sistema de produção extrativista realizada por comunidades tradicionais moradoras de Unidades de Conservação (UCs), como as reservas extrativistas, assim como nos assentamentos da reforma agrária, garantindo a compra das matérias-primas das famílias produtoras. Tudo isso agregando valor a partir do processamento industrial, por meio de suas plantas agroindustriais e comercializando produtos florestais e da agricultura familiar. Além disso, compra castanha e sobretudo borracha nativa de estados vizinhos, como Rondônia, Amazonas, Mato Grosso e Pará.

Uma das agroindústrias para beneficiamento da castanha, no município de Rio Branco. Crédito: Divulgação Cooperacre.
Para dar conta da atual produção, possui 30 galpões comunitários para armazenamento nos territórios de produção, quatro galpões centrais e seis indústrias para beneficiamento de castanha, polpas de frutas tropicais, palmito de pupunha e borracha. Seus produtos chegam a todo o mercado brasileiro, além de exportação para nove países. “Os desafios para implementar o cooperativismo nos estados da Amazônia brasileira são inúmeros e requerem compromisso público, do estado brasileiro, em rever estratégias de tributação, incentivo econômico e de financiamento adequado. Mesmo em um cenário com estas limitações, a Cooperacre se consolida como um exemplo de como isso pode dar certo, colhendo resultados positivos agora, além de plantar sementes também para um futuro melhor e mais sustentável. Em tempos onde cada vez mais vemos e sentimos os efeitos das mudanças climáticas, apoiar o trabalho de cooperativas como a Cooperacre é investir em um futuro melhor para todo o mundo”, comenta Tatiana.
Aproximando-se da celebração de seus 25 anos de trajetória, marcados pela consolidação das cadeias produtivas da castanha e da borracha, a Cooperacre reafirma sua vocação para a inovação e seu caráter visionário, e está investindo na construção de uma nova planta agroindustrial equipada com tecnologia de ponta para o processamento de frutas tropicais. Essa iniciativa busca ampliar e diversificar seu portfólio de produtos compatíveis com a floresta, explorando novos mercados e potencializando alternativas sustentáveis para a geração de renda das famílias agroextrativistas, fortalecendo ainda mais seu papel estratégico na promoção do desenvolvimento sustentável da Amazônia.“Em 2023, a Cooperacre revisou seu Plano Estratégico para os próximos 5 anos, reafirmando compromissos com a sustentabilidade socioeconômica e ambiental. Contamos com o apoio da GIZ neste processo, e definimos os nossos pontos de intervenção estratégicos e metas para ampliar e diversificar nossa produção, aumentar nossa capacidade de beneficiamento, fortalecer as cooperativas singulares, garantir o protagonismo das mulheres e da juventude e modernizar nossa estrutura de gestão”, aponta De Araújo, presidente da Cooperacre.
Para quem é extrativista, olhar para o futuro, de forma estratégica e planejada, representa um plano de negócios com propósito. Ao pensar em sua atual condição, dona Nilva está em uma posição diferente de seu pai. “Sou uma produtora extrativista e também trabalho na agricultura familiar. Extraímos a borracha, a castanha e o açaí, e também as frutas, como meus pais faziam. Mas hoje, nós podemos dizer que temos mercado para tudo isso, porque a Cooperacre garante a compra de toda a nossa produção. Isso é uma segurança, porque a Cooperacre compra, paga no ato da compra, e paga bem pago! Hoje a Cooperacre representa uma outra forma de negociar nossos produtos, e somos parte deste negócio e isso nos permite pensar em um futuro melhor para nossas familias”, avalia dona Nilva.